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Crescimento dos carros elétricos acende alerta sobre infraestrutura de condomínios em Goiás

Class News

A expansão da mobilidade elétrica no Brasil segue em ritmo acelerado. Impulsionada por inovação tecnológica, políticas de sustentabilidade e maior adesão do consumidor, essa transformação começa agora a revelar um desafio considerado urgente por especialistas: a infraestrutura elétrica de condomínios, prédios e edificações urbanas ainda não acompanha a velocidade desse crescimento

Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE)  mostram que o Brasil encerrou 2025 com recorde histórico de 223.912 veículos eletrificados leves vendidos, crescimento de 26% em relação ao ano anterior e o maior volume já registrado pelo setor no país.

Já os dados consolidados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), compilados por empresas especializadas em mobilidade elétrica, apontam que a frota brasileira de veículos eletrificados ultrapassou 613 mil unidades ao final de 2025. O crescimento acelerado consolida a mobilidade elétrica como um dos segmentos mais dinâmicos do mercado automotivo nacional e amplia o debate sobre a capacidade da infraestrutura urbana e predial para acompanhar essa transformação energética.

O avanço da mobilidade elétrica também é percebido de forma expressiva no Centro-Oeste. Dados da ABVE mostram que a região encerrou 2025 com 33.964 veículos eletrificados leves vendidos, consolidando-se como o quarto maior mercado brasileiro do segmento.

Em Goiás, o crescimento segue acima da média nacional. O estado fechou 2025 com 6.487 veículos eletrificados comercializados, alta de 23% em relação ao ano anterior. Nos emplacamentos acumulados desde 2022, Goiás soma cerca de 14,8 mil veículos eletrificados, consolidando-se entre os principais mercados brasileiros da mobilidade elétrica.

Goiânia também passou a ocupar posição de destaque no cenário nacional da mobilidade elétrica. Segundo levantamento da ABVE, a capital goiana soma cerca de 6,8 mil veículos eletrificados nos emplacamentos acumulados desde 2022, ocupando a 8ª posição entre os municípios brasileiros com maior volume de eletrificados em circulação.

Grande parte do carregamento dos veículos elétricos acontece em residências, condomínios e garagens privadas. O problema é que muitas dessas estruturas foram projetadas décadas atrás, em uma realidade completamente diferente do atual consumo energético. Em muitos empreendimentos, especialmente prédios antigos, começam a surgir adaptações elétricas feitas sem estudos adequados de demanda, sem avaliação da capacidade da rede interna e sem planejamento técnico compatível com carregadores de alta potência.

Para as engenharias, esse é um dos principais pontos de atenção da transição energética urbana. “A instalação de carregadores não pode ser tratada como uma simples adaptação elétrica. Existe a necessidade de estudo de demanda, análise da capacidade da edificação, revisão dos sistemas de proteção e planejamento técnico adequado para evitar riscos”, avalia Flávio Fernandes, engenheiro eletricista e de segurança do trabalho.

A preocupação vai além do aumento do consumo de energia. Especialistas alertam para riscos relacionados à sobrecarga elétrica, falhas em sistemas de proteção, aquecimento excessivo de instalações antigas e incêndios em garagens subterrâneas. O tema já mobiliza discussões nacionais entre Corpos de Bombeiros, concessionárias de energia, entidades da engenharia e órgãos de fiscalização.

“A consolidação da mobilidade elétrica não depende de um único ator. Trata-se de uma agenda que exige responsabilidade compartilhada entre profissionais, entidades técnicas, órgãos públicos e a própria sociedade. Cabe à engenharia liderar tecnicamente essa transformação, garantindo segurança, conformidade, planejamento adequado e responsabilidade técnica em todas as etapas, desde o projeto, a instalação até a operação dos sistemas, incluindo o registro da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART)”, argumenta a engenheira Tatiana Jucá.

Incêndios envolvendo baterias de veículos elétricos possuem características específicas de propagação e exigem protocolos diferenciados de prevenção e combate. “A infraestrutura de carregamento em condomínios deve considerar sistemas de detecção e combate específicos para estes riscos. Um projeto inadequado aumenta exponencialmente o perigo”, alerta o engenheiro Willy Chagas Santana, especialista da área de segurança.

A expansão da infraestrutura de recarga também evidencia a velocidade do avanço da mobilidade elétrica. Segundo levantamento da ABVE em parceria com a Tupi Mobilidade, o Brasil alcançou 16.880 pontos públicos e semipúblicos de recarga em 2025, um crescimento de 59% em apenas um ano. Mesmo assim, o crescimento da infraestrutura pública ainda acontece em ritmo inferior ao avanço da frota.

Em Goiás, o avanço da mobilidade elétrica também começa a pressionar a infraestrutura de recarga. Dados mais recentes do setor apontam que o estado possui atualmente 384 pontos públicos e semipúblicos de carregamento de veículos elétricos, número ainda considerado insuficiente diante do crescimento acelerado da frota eletrificada. Desse total, 197 estações estão concentradas em Goiânia, que aparece entre as cidades brasileiras com maior número de carregadores instalados.

Outro ponto sensível é que, segundo estimativas do setor de mobilidade elétrica, cerca de 80% das recargas de veículos elétricos acontecem em residências, condomínios e garagens privadas. O dado reforça a pressão crescente sobre estruturas elétricas prediais, especialmente em empreendimentos antigos que não foram projetados para suportar sistemas simultâneos de carregamento.

A preocupação já mobiliza órgãos públicos e entidades técnicas em Goiás. Diante do avanço da mobilidade elétrica, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás publicou a Norma Técnica nº 45/2025, em 20 de outubro de 2025, estabelecendo diretrizes específicas para instalação de sistemas de recarga em garagens, estacionamentos e edificações, com foco em ventilação, proteção elétrica, sinalização, controle de risco de incêndio e obrigatoriedade de responsabilidade técnica especializada.

No mercado imobiliário, administradoras e representantes do setor já observam aumento significativo na procura por instalação de carregadores individuais, principalmente em condomínios verticais de médio e alto padrão.

Os condomínios estão diante de uma nova realidade energética. Segundo Antônio Carlos da Costa, presidente do Sindicato das Imobiliárias, Shoppings e Flats do Estado de Goiás (Secovi Goiás), a expansão da mobilidade elétrica já impacta os condomínios, principalmente os verticais mais antigos, que enfrentam desafios para adaptar a infraestrutura elétrica às novas exigências.

“Enquanto casas em condomínios horizontais e empreendimentos verticais novos já conseguem integrar carregadores e energia fotovoltaica com mais facilidade, os prédios antigos precisarão de intervenções mais complexas e onerosas para atender à regulamentação e à crescente demanda”, afirma.

Ele destaca ainda que a individualização do consumo de energia é um desafio para a administração condominial, embora já existam tecnologias para isso. Segundo o presidente do Secovi Goiás, a combinação entre energia solar e carregadores elétricos tende a se tornar um importante diferencial competitivo no mercado imobiliário.

Além das adequações técnicas, começam a surgir dúvidas sobre responsabilidades civis, divisão de custos, aprovação em assembleias e critérios de segurança para instalações individuais dentro das garagens.

Embora o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO) ainda não tenha publicado uma nota técnica própria sobre mobilidade elétrica, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) avançou nacionalmente na regulamentação do tema. Em 16 de outubro de 2025, o órgão publicou a Nota Técnica “Diretrizes para Instalação de Pontos de Recarga de Veículos Elétricos em Edificações”, elaborada pelo Comitê Técnico de Carregadores Veiculares do Confea. O documento estabelece parâmetros técnicos para instalação de carregadores em prédios residenciais e comerciais, reforçando a obrigatoriedade de responsabilidade técnica, estudos de viabilidade elétrica, dimensionamento adequado e emissão da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).

Para a engenheira Tatiana Jucá, o avanço da mobilidade elétrica tornou inevitável uma nova discussão sobre infraestrutura urbana e segurança predial. “Não existe transição energética segura sem planejamento técnico”, afirma.

Segundo ela, o crescimento acelerado da frota de veículos elétricos exige que condomínios, empreendimentos, concessionárias, órgãos públicos e profissionais da engenharia avancem na mesma velocidade da transformação tecnológica. “O desafio não é apenas ampliar a mobilidade elétrica, mas garantir que toda a infraestrutura de suporte acompanhe esse crescimento com segurança, regulamentação e responsabilidade técnica”, defende.

Enquanto a frota de veículos elétricos cresce em ritmo recorde no Brasil, aumenta também a necessidade de garantir que a infraestrutura urbana, predial e condominial acompanhe a transformação energética com segurança, planejamento técnico e responsabilidade.

Delson Carlos

Delson Carlos - Formado em Marketing pela UniCambury e pós-graduado em Comunicação Digital. Assessor de imprensa e começou a sua carreira como colunista social nos jornais: A Hora, Jornal da Imprensa, Jornal Diário do Estado de Goiás, e a quase duas décadas está a frente da coluna social “Delson Carlos” do Jornal Diário de Aparecida e editor da Revista Class e do Portal Class News.

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