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Remuneração baseada em valor na saúde

Class News

Por: Carlos Augusto Dias

A saúde está enfrentando um paradoxo: a tecnologia avança e os custos aumentam, mas os resultados nem sempre acompanham esse ritmo

O modelo de pagamento convencional – de acordo com o volume de serviços (“pay for service”) – recompensa consultas, exames e procedimentos com pagamentos individualizados. Quanto mais você faz, mais você recebe. Nem sempre, porém, significa melhor cuidado.

É por isso que modelos alternativos de remuneração, também chamados de modelos baseados em valor, estão aumentando. Em tais modelos, o pagamento é condicionado pelos resultados clínicos, qualidade do atendimento, coordenação da jornada do paciente e aplicação eficiente dos recursos (“pay for performance”). A ênfase está no resultado entregue, e não apenas na quantidade produzida.

Em teoria, parece óbvio. Na realidade, a implementação apresenta desafios. O primeiro desafio é cultural. Durante décadas, médicos e clínicas foram treinados e organizados para produzir volume. Mudar os critérios de sucesso impacta hábitos, identidade profissional e previsibilidade de receita.

Outro obstáculo é a medição. Modelos baseados em valor precisam de boa análise de dados, indicadores ajustados ao risco e sistemas de informação integrados. Sem falar em transparência nas relações entre organizações. Ainda existem muitos serviços com registros incompletos e baixa maturidade analítica. Não se pode confiar no novo modelo sem métricas confiáveis.

Há também a percepção de risco. Profissionais temem perder sua renda devido a fatores fora de seu controle, por exemplo, desafios de adesão do paciente, problemas de rede ou determinantes sociais. Hospitais temem assumir metas sem controlar totalmente toda a cadeia. Operadoras, por sua vez, se preocupam em pagar mais sem garantir economias futuras.

A resposta da força de trabalho da saúde não é uniforme. Alguns veem uma oportunidade de valorizar a qualidade e a coordenação do cuidado. Outros percebem mais pressão, burocracia e redução da autonomia. A resistência é maior quando a implementação não é bem comunicada. Onde há transparência e participação, a adesão aumenta.

Como ter sucesso na implementação? Aqui vai uma sugestão em 5 passos: comece híbrido primeiro, oferecendo pagamento por serviços acompanhado de incentivos pela qualidade do serviço e pela eficiência com que é realizado; estabeleça alguns indicadores objetivos, clinicamente significativos e relevantes; publique dados rapidamente e dê um bom feedback; compartilhe o risco gradualmente – ninguém precisa pular do precipício para depois aprender a voar; e envolva a liderança clínica desde o desenho do modelo.

A remuneração baseada em valor não é meramente um contrato – é uma mudança prática e grande! Integrar conceitos de gestão de mudança ao processo é fundamental. Quando o profissional de saúde aprecia o objeto e tem sua própria mão na criação do modelo, deixa de ser uma ameaça e se torna um instrumento para um cuidado melhor e mais sustentável.

Carlos Augusto Dias é médico e CEO do Imed Group

Carlos Augusto Dias estará no 6º Simpósio Nacional de Gestão Pública e Privada, que acontecerá nos dias 4 e 5 de março, no Centro de Convenções da PUC. Inscrições pelo site:
www.even3.com.br/6-simposio-nacional-de-gestao-publica-e-privada-687155

Delson Carlos

Delson Carlos - Formado em Marketing pela UniCambury e pós-graduado em Comunicação Digital. Assessor de imprensa e começou a sua carreira como colunista social nos jornais: A Hora, Jornal da Imprensa, Jornal Diário do Estado de Goiás, e a quase duas décadas está a frente da coluna social “Delson Carlos” do Jornal Diário de Aparecida e editor da Revista Class e do Portal Class News.

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