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Por: Thiago Camargo
Discutir o futuro da saúde passa pela sustentabilidade financeira dos hospitais. E essa sustentabilidade começa pelo conhecimento dos custos. Não se trata apenas de controlar despesas, mas de compreender como os recursos são consumidos, quais serviços exigem esforço econômico e como alinhar eficiência assistencial com viabilidade financeira

Em um cenário de envelhecimento populacional, incorporação acelerada de tecnologias e pressão por qualidade e segurança, a gestão de custos deixa de ser uma função técnica e assume papel estratégico. Hospitais que não conhecem com precisão sua estrutura de custos enfrentam dificuldades para planejar investimentos, negociar contratos e sustentar suas operações no médio e longo prazo.
Esse debate ganha relevância diante da transição para novos modelos de remuneração. No entanto, os dados do Observatório ANAHP 2025 mostram que essa mudança ainda é limitada no setor privado. Percentualmente, poucos hospitais utilizam de forma significativa os chamados “novos modelos de remuneração”. A maior parte da remuneração permanece concentrada em formatos tradicionais como o fee for service. Dentro dos novos modelos, pacotes e bundles apresentam participação bem inferior ao modelo por diárias, enquanto os modelos mais focados e centrados no cuidado, como remunerações baseadas em desempenho, desfecho clínico ou capitação representam fatias ainda mais reduzidas do total contratado.
Além da baixa adoção, a percepção das instituições também é cautelosa. O pagamento por diárias hospitalares concentra apenas 39,4% das avaliações positivas entre os hospitais que utilizaram esse modelo, seguido por pacotes e bundles, com cerca de 16,9%. Modelos como fee for service com bônus por performance aparecem com aproximadamente 7%, enquanto a capitação registra em torno de 2,8%. Formatos baseados em desfecho clínico ou DRG têm participação praticamente residual, dados extraídos do observatório ANAHP 2025.
Esses dados indicam que, além de ainda pouco difundidos, os novos modelos de remuneração não apresentam, na perspectiva dos hospitais privados, uma avaliação favorável. O cenário é influenciado pela complexidade operacional, pela maturidade gerencial exigida e pelas dificuldades de negociação com as fontes pagadoras, que também precisam estar preparadas para discussões mais técnicas, com compartilhamento de risco e maior transparência de dados.
A transição para modelos mais sofisticados não é apenas contratual, é estrutural. Exige domínio dos custos, integração entre áreas assistenciais e administrativas e governança baseada em informação.
Sustentabilidade hospitalar, portanto, não depende apenas de inovar na forma de remunerar, mas de preparar as instituições para essa evolução. Conhecer custos e alinhar estratégia econômica aos novos formatos de pagamento é condição essencial para que a transformação do financiamento da saúde seja consistente e orientada a valor.
Thiago Camargo é Diretor de Gestão e Projetos na Associação Nacional de Hospitais Privados – ANAHP. Ele estará presente no 6º Simpósio Nacional de Gestão Pública e Privada que acontecerá, nos dias 4 e 5 de março, no Centro de Convenções da PUC, em Goiânia.