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Reforma tributária, envelhecimento populacional e avanço tecnológico são apontados como fatores que podem elevar despesas médicas e desafios de financiamento da saúde no estado nas próximas décadas

Renato Gomes
Em Goiás, o futuro da conta da saúde já se consolida como um dos principais desafios econômicos e sociais das próximas décadas. A saúde representa uma das maiores parcelas do orçamento das famílias goianas e também dos sistemas público e privado, em um cenário pressionado pela concentração de serviços hospitalares em Goiânia, pelo envelhecimento populacional, pela transformação digital da medicina e pelas mudanças na estrutura tributária brasileira, que tendem a elevar os custos assistenciais para hospitais, operadoras de planos de saúde, governos e cidadãos.
O cenário preocupa gestores públicos e privados, que acompanham as mudanças econômicas com cautela. Para o executivo em saúde Renato Gomes, atual presidente do Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde, o desafio começa pela realidade local, mas se conecta ao sistema nacional. “O problema da saúde em Goiás não é apenas financeiro. É estrutural. O estado precisa discutir eficiência antes mesmo de discutir expansão de custos assistenciais”, afirma.
O debate ganha força diante da reforma tributária aprovada por meio da Emenda Constitucional nº 132/2023, que substitui tributos como ICMS, ISS, PIS e COFINS por impostos sobre valor agregado. Embora a medida seja defendida como mecanismo de simplificação fiscal, análises do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), da Confederação Nacional de Saúde e de especialistas em economia da saúde indicam que a mudança pode pressionar a cadeia de custos do setor, especialmente em um segmento fortemente dependente de medicamentos, equipamentos médicos e insumos importados, cuja precificação é sensível às oscilações cambiais e tributárias. “A tributação influencia diretamente o custo assistencial. Qualquer mudança fiscal tende a se transformar rapidamente em pressão sobre hospitais, operadoras e pacientes”, avalia Renato Gomes.
O impacto econômico da saúde no país ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Dados da Conta-Satélite da Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o Brasil investiu cerca de R$ 872,7 bilhões em saúde em 2021, equivalente a 9,7% do Produto Interno Bruto daquele ano, sendo o dado mais recente consolidado disponível. Analistas projetam que os gastos com saúde podem alcançar cerca de 10% do PIB brasileiro em 2026, indicando que o crescimento das despesas assistenciais tende a ser estrutural, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pela incorporação de novas tecnologias médicas e pelo aumento da demanda por serviços da saúde.
Esse cenário se reflete diretamente em Goiás, onde o sistema assistencial já opera sob pressão de demanda. A rede pública do estado possui cerca de 4.178 leitos hospitalares, entre leitos clínicos e de terapia intensiva, distribuídos entre hospitais estaduais, municipais e unidades conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Dados da Secretaria de Estado da Saúde indicam que, em períodos de maior demanda, a taxa de ocupação desses leitos pode ultrapassar 85%, patamar considerado crítico para planejamento assistencial e regulação hospitalar. “Quando a ocupação hospitalar chega a esse nível, o sistema perde capacidade de planejamento e começa a operar sob pressão permanente. Isso aumenta custos e reduz qualidade assistencial”, observa Renato Gomes.
A concentração de serviços de alta complexidade em Goiânia também cria desigualdades assistenciais entre capital e interior. Segundo levantamento do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), 109 municípios goianos dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde para atendimento médico, já que não possuem oferta de serviços privados, ampliando a vulnerabilidade da população frente ao aumento dos custos assistenciais.
O cenário demográfico também contribui para pressionar o sistema de saúde. O IBGE projeta crescimento acelerado da população idosa no Brasil até 2030. Em 2022, pessoas com 60 anos ou mais já somavam mais de 32 milhões de brasileiros, representando cerca de 15,6% da população. Em Goiás, aproximadamente 13,7% da população, cerca de 964 mil pessoas, está nessa faixa etária. O envelhecimento populacional amplia a demanda por tratamentos crônicos, cirurgias de alta complexidade e uso contínuo de medicamentos, exigindo novos modelos de financiamento e organização dos serviços assistenciais. “O sistema de saúde brasileiro foi desenhado para tratar doenças agudas. O grande desafio agora é estruturar uma medicina preventiva e de acompanhamento contínuo”, afirma o executivo.
A sustentabilidade financeira da saúde suplementar também preocupa o setor em Goiás. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar mostram que os custos assistenciais dos planos de saúde cresceram acima da inflação geral da economia em vários períodos recentes, com variações médias anuais superiores a 12% em alguns ciclos pós-pandemia. O Brasil encerrou 2025 com 53,18 milhões de beneficiários de planos de saúde médico-hospitalares, mantendo crescimento do setor.
Em Goiás, cerca de 1,92 milhão de pessoas estavam vinculadas à saúde suplementar em 2025, representando aproximadamente 28% da população. No Centro-Oeste, o crescimento da saúde suplementar entre 2022 e 2025 foi superior à média nacional, com expansão aproximada de 1,8% no número de vínculos médico-hospitalares. Apesar da ampliação da cobertura privada, o setor enfrenta pressão sobre margens financeiras e necessidade crescente de eficiência administrativa e assistencial. “O crescimento da saúde suplementar mostra demanda reprimida, mas também revela um problema econômico: a capacidade das famílias de continuar pagando planos de saúde está se tornando um limitador de mercado”, pondera Renato Gomes.

Haikal Helou
Para Haikal Helou, presidente do Conselho de Administração da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás, a sustentabilidade das instituições de saúde depende da profissionalização da gestão, do fortalecimento da governança e do equilíbrio entre investimentos em qualidade — incluindo a necessária modernização tecnológica — e a justa remuneração pelos serviços prestados. Segundo ele, atualmente esse equilíbrio não ocorre, e a baixa remuneração tem comprometido a sobrevivência de grandes instituições hospitalares. “Os desafios do mercado exigem mudanças estruturais não apenas por parte dos hospitais, mas também das operadoras de planos de saúde e dos gestores públicos, para que o sistema alcance equilíbrio econômico e assistencial”, afirma.
A transformação digital surge como possível resposta aos desafios de eficiência do sistema de saúde, por meio da chamada Saúde 5.0, que envolve o uso de inteligência artificial para diagnóstico por imagem, análise preditiva de doenças e automação de processos hospitalares. O avanço tecnológico pode reduzir desperdícios e melhorar a gestão assistencial, mas também exige investimentos elevados em infraestrutura, capacitação profissional e manutenção de sistemas. “A tecnologia não reduz custos sozinha. Ela reduz custos quando existe gestão estratégica por trás da inovação”, afirma Renato Gomes.
A Organização Mundial da Saúde alerta que a digitalização da saúde só se torna socialmente sustentável quando acompanhada de políticas públicas de regulação, inclusão digital e capacitação profissional. No Brasil, grandes hospitais privados e centros de referência já utilizam inteligência artificial para apoio diagnóstico e gestão de pacientes, enquanto municípios menores ainda enfrentam dificuldades com sistemas básicos de prontuário eletrônico, refletindo desigualdades regionais de investimento tecnológico. “O Brasil corre o risco de criar duas saúdes: uma altamente tecnológica e outra ainda básica e sobrecarregada. Isso não é sustentável economicamente nem socialmente”, avalia.
Em Goiás, o estado começa a se posicionar como polo de inovação em saúde, com o desenvolvimento de ecossistemas tecnológicos e hospitais de referência como o Hospital Estadual Alberto Rassi e iniciativas como o HUB Goiás, voltadas para inovação em saúde digital e gestão hospitalar inteligente. Ainda assim, o acesso à tecnologia médica continua desigual entre capital e interior, devido a diferenças de infraestrutura e capacidade de investimento. “Inovação sem escala não resolve o problema da saúde pública. O grande desafio é levar tecnologia para onde ela é mais necessária, e não apenas para os grandes centros”, esclarece Renato Gomes.
O debate sobre o futuro da saúde será aprofundado durante o 6º Simpósio Nacional de Gestão Pública e Privada da Saúde, realizado nos dias 4 e 5 de março, no Centro de Convenções da PUC Goiás, com participação de cerca de 500 profissionais entre gestores públicos e privados, profissionais da saúde, advogados, economistas e pesquisadores. O evento terá como eixo central a premissa de que a qualidade da saúde começa na gestão, discutindo governança, modelos de remuneração baseados em valor, segurança do paciente, judicialização da saúde e transformação digital.
Para Renato Gomes, o futuro da saúde dependerá menos de respostas isoladas e mais de coordenação sistêmica. “O grande desafio das próximas décadas não será apenas financeiro ou tecnológico. Será de governança. Quem conseguir integrar gestão, tecnologia e financiamento terá vantagem competitiva e assistencial”, conclui.
Serviço:
O que: 6º Simpósio Nacional de Gestão Pública e Privada
Quando: 4 e 5 de março de 2026
Horário: Dias 4 e 5 de março: a partir das 14h
Aonde: Centro de Convenções da PUC – Câmpus II, Av. Engler, 507 – Jardim Mariliza, Goiânia – GO
Quem promove: Instituto RG – Consultoria em Gestão
Inscrições
Profissionais e estudantes interessados podem se inscrever pelo site:
www.even3.com.br/6-simposio-nacional-de-gestao-publica-e-privada-687155