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O que vamos comer e beber em 2026? Especialistas analisam sinais e tendências para a gastronomia

Class News

Quando o assunto é comida e bebida, alguns se aventuram a projetar cenários que podem influenciar tanto o paladar quanto o comportamento neste ano

Se 2025 foi o ano em que a gastronomia pareceu oscilar entre a obsessão por tendências instantâneas e certa fadiga coletiva de excessos, o balanço deixa mais perguntas do que certezas. Entre a febre do morango do amor, o chocolate de Dubai elevado à categoria de fetiche digital, o matcha alçado a bebida símbolo de uma estética saudável, o café especial cada vez mais caro e a tentativa – ainda tímida – de rever a relação com o álcool, comer deixou de ser apenas prazer e se tornou também performance, narrativa e, muitas vezes, disputa por atenção.

No Brasil e no mundo, o avanço das chamadas “canetas emagrecedoras”, a consolidação de uma cultura de restrição disfarçada de bem-estar, a fragmentação da experiência gastronômica em conteúdos virais e a transformação de cozinhas em cenários para trends aceleraram um processo que já vinha em curso: a diluição do sentido de comer junto, da mesa como espaço de troca, da comida como cultura. 

Diante desse cenário, pensar o que nos espera em 2026 é menos um exercício de futurologia e mais uma tentativa de leitura de sinais. Nem todo mundo se arrisca a prever rumos, sobretudo em um campo cada vez mais atravessado por tecnologia, mercado, comportamento e saúde. Mas quem se dispõe a fazer esse exercício parte de repertório, dados e, principalmente, da observação atenta dos movimentos que já estão em curso.

É a partir desse olhar que profissionais de diferentes áreas da gastronomia – chefs, pesquisadores, críticos, empresários e comunicadores – analisam aqui os aprendizados, os impasses e as apostas para o setor nos próximos meses: menos espetáculo, mais sentido; menos volume, mais critério; menos truque, mais essência.

Menos, porém melhor

Se 2026 não parece ser um ano de abundância, tampouco será de desperdício. A palavra-chave é “critério”, com um público mais atento, mais crítico e menos disposto a se encantar apenas por truques visuais. Rafael Tonon, jornalista de gastronomia e colunista do site UOL – para onde acaba de escrever uma coluna sobre o mesmo tema –, acredita que as pessoas vão poupar mais e pensar mais antes de gastar, especialmente por causa da inflação e do aumento dos preços dos alimentos.

“O valor cobrado vai pesar muito mais na decisão. A sensação de ‘valeu a pena’ vai ser determinante”, crava. Isso muda o comportamento: menos improviso, mais pesquisa. O consumidor tende a olhar cardápios antes, pedir indicações, ler críticas, buscar referências de qualidade. “Nesse contexto, o papel da imprensa gastronômica e dos curadores de conteúdo com credibilidade ganha ainda mais importância”, diz. 

Menos, porém melhor

Se 2026 não parece ser um ano de abundância, tampouco será de desperdício. A palavra-chave é “critério”, com um público mais atento, mais crítico e menos disposto a se encantar apenas por truques visuais. Rafael Tonon, jornalista de gastronomia e colunista do site UOL – para onde acaba de escrever uma coluna sobre o mesmo tema –, acredita que as pessoas vão poupar mais e pensar mais antes de gastar, especialmente por causa da inflação e do aumento dos preços dos alimentos.

“O valor cobrado vai pesar muito mais na decisão. A sensação de ‘valeu a pena’ vai ser determinante”, crava. Isso muda o comportamento: menos improviso, mais pesquisa. O consumidor tende a olhar cardápios antes, pedir indicações, ler críticas, buscar referências de qualidade. “Nesse contexto, o papel da imprensa gastronômica e dos curadores de conteúdo com credibilidade ganha ainda mais importância”, diz. 

Textura e experiência no paladar

Além do sabor, outras dimensões da experiência gastronômica começam a ganhar protagonismo. Rafael Tonon, jornalista de gastronomia e colunista do UOL, aposta que a próxima fronteira está na textura. “Não só o crocante, mas o macio, o elástico, o gelatinoso, o cartilaginoso”, exemplifica. Influências da China, da Coreia do Sul e do Japão – como o mochi – tendem a aparecer cada vez mais, tanto em restaurantes quanto em produtos de mercado.

Brasilidade no topo

Se existe uma grande tendência que atravessa vários discursos, ela passa pela valorização do Brasil – não como marketing, mas como conteúdo. Para o chef e confeiteiro Lucas Corazza, também jurado do programa “Que Seja Doce” na GNT, o ano de 2026 consolida esse movimento. “A maior tendência é ser brasileiro. Vejo também ingredientes orientais chegando, mas definitivamente é o ano da goiabada, do doce de leite, da mandioca, do chocolate brasileiro e do cupuaçu”, acredita. Ele observa ainda que, no universo dos doces, a identidade visual e as embalagens ganham cada vez mais peso na decisão de compra e “são sinônimo do gesto de presentear”, aponta.

No mundo do vinho, o movimento é parecido. O sommelier Danyel Steinle, aposta no fortalecimento dos rótulos brasileiros. “Hoje a gente tem vinhos brancos e tintos no Brasil que não deixam nada a desejar aos grandes vinhos”, afirma. Para ele, o consumidor está mais aberto a experimentar o que é feito aqui – e esse reconhecimento tende a crescer.

Paulo Brammer, CEO da vinícola Guaspari (Espírito Santo do Pinhal, em SP), vê o vinho cada vez mais como valor cultural. “As pessoas bebem menos, porém escolhem melhor, guiadas por curadoria e significado. Isso posiciona o vinho como experiência e como elemento de conexão social, com o local e com quem produz”, confia.

Hospitalidade como diferencial

A tecnologia e a Inteligência Artificial (IA) seguem avançando – e ninguém parece querer freá-las. Mas cresce a percepção de que ela deve ficar nos bastidores. Rosa Moraes, embaixadora dos cursos de gastronomia e hospitalidade da Ânima Educação, vê ferramentas de dados e inteligência artificial como aliadas importantes na operação: ajudam a prever demandas, reduzir desperdícios e tornar os negócios mais eficientes. “Mas 2026 consolida um limite importante: tecnologia como apoio, nunca como substituta da hospitalidade”, afirma. 

A estrategista de marcas Vanessa Huguinin concorda. Para ela, IA não substitui função; substitui quem não sabe aplicar. “Tecnologia não é inimiga da tradição, elas se sentam à mesma mesa”, diz. 

Josimar Melo faz o contraponto mais duro: critica a expansão de QR codes, totens e serviços automatizados que eliminam a conversa, a sugestão, a mediação humana. Num mercado cada vez mais competitivo, talvez justamente o calor humano volte a ser um dos maiores diferenciais.

Sustentabilidade 

Talvez o movimento mais importante seja a capacidade de adaptação. Rosa Moraes fala da importância de a sustentabilidade deixar de ser discurso e passar a orientar decisões concretas. “Cozinhas mais flexíveis, chefs criativos diante da escassez e restaurantes que assumem um papel ativo na transformação do sistema alimentar”, acredita.

Em sintonia, a jornalista Carol Daher acredita que, em 2026 e nos próximos anos, haverá uma valorização de uma culinária que represente de fato o lugar onde o restaurante está inserido. “Uma comida que só faz sentido por existir ali. Essa estética globalizada – em que o mesmo prato poderia ser servido tanto em São Paulo quanto em Nova York – tende a perder espaço”, diz.

No fim das contas, 2026 parece ser o ano em que o setor começa a escolher melhor o que vale a pena manter – e o que já pode, sem culpa, ficar para trás. 

Delson Carlos

Delson Carlos - Formado em Marketing pela UniCambury e pós-graduado em Comunicação Digital. Assessor de imprensa e começou a sua carreira como colunista social nos jornais: A Hora, Jornal da Imprensa, Jornal Diário do Estado de Goiás, e a quase duas décadas está a frente da coluna social “Delson Carlos” do Jornal Diário de Aparecida e editor da Revista Class e do Portal Class News.

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